quinta-feira, 8 de abril de 2010

O Metrô e o Velho

O metrô é bom pra pensar.

Pensar no tempo que está por consumir as caras dos novos. Do tempo que começou a enrugar as bochechas e testas dos que não se sabem mais tão moços e a carcomer os últimos resquícios do que resta da pele fina e amarelada dos velhos.

- Rejuvenesço o rosto pra quem o tempo tratou de passar...

A gente não percebe a bagagem que carrega o velho, não entende as costas curva, o olhar pesado. Velho é uma história esquecida que insiste em ocupar um lugar na estante: todo mundo sabe que ela existe mas ninguém se preocupa em lê-la.

A salvação do velho é o próprio velho que criou gosto pelas páginas que amarelam, pelas fotografias enferrujadas e endurecidas numa geografia que não existe mais. O velho que se acostumou a viver o presente repetindo em voz alta o passado.

Morrendo conscientemente a cada memória esquecida. A cada instante, a cada dor, a cada solidão. Sozinho, o velho digere a falta de tempo dos filhos, o desinteresse dos netos e o cansaço de si mesmo.

O velho que se acostumou a viver o presente repetindo em voz alta o passado

morre quieto... que é pra não incomodar ninguém.